terça-feira, 6 de outubro de 2009

Novas possibilidades de exame para o diagnóstico da Doença Celíaca


Atualmente, a realização de biópsia do intestino delgado é necessária para a confirmação do diagnóstico da doença celíaca. Nos casos em que os exames de sangue são positivos (ou seja, há positividade para anticorpos séricos como o anti-endomísio e a anti-transglutaminase), os pacientes são encaminhados para a realização da biópsia, que confirma o diagnóstico caso haja detecção de inflamação (observada através de níveis aumentados de linfócitos intraepiteliais na mucosa intestinal) e lesões na mucosa do intestino, as quais ocasionam uma diminuição da superfície e capacidade de absorção de nutrientes (em termos técnicos, estas seriam detectadas através da presença de atrofias vilositárias e hiperplasia críptica da mucosa).

No entanto, a presença destas lesões não é específica para a doença celíaca, ou seja, elas também podem estar presentes nos casos de outras complicações gastro-intestinais, como por exemplo no caso de giardíase e gastroenterites. O diagnóstico preciso é ainda mais difícil naqueles casos em que a atrofia das vilosidades intestinais ocorre de forma dispersa, sendo evidente apenas em algumas porções da mucosa intestinal. Além disso, as lesões induzidas pela presença do glúten progridem gradualmente, indo desde somente uma inflamação na mucosa até os casos de atrofia total das vilosidades, tornando difícil a detecção de casos em estágios iniciais. Finalmente, a quantidade e qualidade do material colhido nas biópsias pode também comprometer a interpretação dos resultados.

Assim, com o objetivo de facilitar o diagnóstico e acompanhamento da doença celíaca, um grupo de cientistas finlandeses acaba de publicar um novo estudo em que testam a eficácia de um novo indicador da doença, utilizando-se para tal de dados provenientes de mais de 500 pessoas (dentre não-celíacos, celíacos não tratados, celíacos tratados por um curto prazo e celíacos em tratamento já a longo prazo).

Conforme explicado pelo Dr. Maki e sua equipe, uma das características da doença celíaca é a presença de depósitos do anticorpo anti-transglutaminase 2 (classe IgA) na própria mucosa intestinal. Segundo os investigadores, a produção destes anticorpos ocorreria no próprio intestino, somente então passando para a circulação sanguínea (daí decorreria a possibilidade de detecção dos anticorpos através de exames de sangue). Desta forma, os pesquisadores examinaram a sensibilidade destes depósitos como marcadores da doença em um grande número de pacientes celíacos não-tratados, investigando também se os níveis destes depósitos diminuiriam após a adoção da dieta sem glúten.

Os resultados mostraram a presença destes depósitos em todos os celíacos não tratados, sendo em 90% destes casos de intensidade moderada ou alta. Já no grupo de não-celíacos, os depósitos foram encontrados apenas em 18% dos indivíduos, em todos estes com níveis muito baixos. No caso de celíacos tratados (ou seja, adeptos da dieta sem gluten) a intensidade dos depósitos diminuiu se comparada a dos celíacos não tratados, mas ainda estava presente em 56% dos portadores seguindo a dieta já a longo prazo (segundo os autores, após a adoção da dieta sem glúten haveria primeiro a normalização dos anticorpos sanguíneos, seguida da recuperação das vilosidades intestinais, à qual então seguiria a diminuição dos indicadores de inflamação intestinal, para somente então haver diminuição da intensidade dos depósitos de anticorpos na mucosa intestinal).

De posse destes resultados, os pesquisadores concluem que os depósitos do anticorpo anti-transglutaminase 2 na mucosa intestinal constituem indicadores bastante precisos da presença de doença celíaca, sendo mais sensíveis do que outros marcadores sanguíneos e de inflamação. Embora estudos anteriores já tinham indicado esta possibilidade, este é o primeiro estudo do gênero a testar o uso destes marcadores em um grande número de pessoas. Os pesquisadores alertam para o fato de que embora o método seja simples e rápido, ele requer o congelamento do material colhido nas biópsias, o que pode limitar seu uso. Mas enfatizam que, naqueles centros em que é possível realizá-lo, esta pode ser uma ferramenta adicional bastante útil para determinar a presença da doença celíaca, principalmente naqueles casos em que o diagnóstico é difícil ou incerto.

Fonte:
Koskinen, Outi MD; Collin, Pekka MD; Lindfors, Katri PhD; Laurila, Kaija MSc; Mäki, Markku MD; Kaukinen, Katri MD 2009. Usefulness of Small-bowel Mucosal Transglutaminase-2 Specific Autoantibody Deposits in the Diagnosis and Follow-up of Celiac Disease. Journal of Clinical Gastroenterology [epub ahead of print].

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